A difícil adaptação de Maverick Viñales com a Yamaha.

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Alguns podem chamar de ameaça disfarçada. Por diversas vezes neste ano, Marc Marquez aproveitou a ocasião na sala de conferência de imprensa para elogiar um rival que estava sentado a apenas um metro de distância.

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Além de elogiar o oponente com palavras tipo “ele lutou”, “ele foi o melhor piloto de hoje” e “é com ele que tenho que me preocupar no futuro”. O atual campeão mundial descreveu os esforços desse novo inimigo novo como ‘incríveis’. “Ele mostrou a todos o que eu já sabia”, afirmou Marquez. “Ele tem o talento, a mentalidade para liderar uma corrida, de vencer uma corrida e no próximo ano ele será um forte candidato ao campeonato.”

Não era um elogio inócuo, por mais que merecesse. Márquez estava jogando a luva no chão, pressionando sutilmente os ombros do rival e observando como ele reage.

O fato de o piloto em questão ser Fabio Quartararo, o homem à direita de Marquez, e não Maverick Viñales, a figura à esquerda, era um sinal de como as duas fortunas masculinas da Yamaha diferiram este ano.

Cem reais para os pensamentos de Viñales ao ouvir Márquez – o nome que sempre foi seu ponto de referência desde os dias no campeonato catalão de minibike -, apontando essas palavras para o piloto que pode ser a nova esperança da Yamaha.

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Leitores do Maniamoto, não se esqueçam que há aproximadamente dois anos o mundo do MotoGP depositara suas esperanças em Viñales, o tipo de figura inquieta imersa em seu próprio aperfeiçoamento, que garantiria que uma era Márquez ao estilo Dohan não passaria sem ser contestada. No entanto, o novato da classe é o que agora está sendo elogiado como a estrela do futuro, para a frustração de Viñales.

Os sentimentos sempre podem nos enganar. Viñales ainda é o principal homem da Yamaha no campeonato de MotoGP deste ano. Ele ocupa o 5º lugar na classificação geral com 147 pontos – 24 pontos de vantagem sobre o novato em destaque. Ele também tem seis pódios – um a mais que Fabio Quartararo, além da distinção de conquistar a primeira – e única – vitória em corrida para a sua fábrica este ano.

Mas o termo de estreia de Quartararo chegou a ser definido pelo ritmo de uma volta, velocidade impressionante nas curvas e a falta de vontade de se curvar às reputações mais altas de seus colegas. O que se destaca ao avaliar 2019 de Viñales, por outro lado, é um caso de potencial não realizado e sua repetida queda em falhas antigas.

A 13 ª corrida deste ano foi um caso que serve como exemplo. Quartararo liderou quase todas as 27 voltas da corrida, começou bem e manteve o ritmo até o final e mostrou uma determinação feroz diante da pressão implacável de Marquez. O # 93 esteve sempre presente, menos de 0,3s atrás do líder na linha de chegada em 20 das 23 voltas que ele seguiu.

Tudo isso em uma pista notoriamente considerada uma fraqueza para a Yamaha. Houve 69 acidentes no fim de semana. A pista estava escorregadia e o sol implacável do fim de semana (a temperatura da pista era de 40 graus) não ajudou. Encontrar tração era um problema contínuo, levando o vencedor da corrida de Moto3, Tatsuki Suzuki, a comparar a ação do último fim de semana a “andar nas condições de chuva”.

Jack Miller considerava a lista de lesões nas classes menores – Mattia Pasini, Marcel Schrotter, Niki Tuuli, Romano Fenati, Can Öncü, Niccolo Antonelli e Niki Tuuli, todos deixando Misano com ossos quebrados – como motivo para ter cautela. “Isso [a falta de aderência] vai mostrar … tem havido tanta merda quebrando ossos e outros penduricalhos de gente. Então, se eu conseguir sair daqui em uma só peça, estarei feliz”.

Viñales não conseguiu acompanhar os dois pilotos à sua frente numa corrida em que poderia ter brilhado. Quando perguntado o que havia acontecido entre a 3º e 8º voltas, quando ele perdeu 2,5 segundos para o líder da corrida, ele parecia exasperado. “Eu não sei”, disse ele. A incapacidade de estabelecer um ritmo abrasador no início de uma corrida, quando a pista permanece carregada com borracha Dunlop escorregadia, é uma característica constante desde que ele se mudou para a Yamaha em 2017.

O que leva Viñales a permitir que Quartaro usurpe seu lugar de direito em apenas 14 corridas?

O talento abrasador do francês já foi mencionado em vários matérias aqui no blog. Os técnicos da Yamaha há muito tempo falam sobre a necessidade de pilotar a M1 da maneira de Jorge Lorenzo. Ou seja, longas filas de arco, movimentos sutis do corpo e uma tremenda quantidade de velocidade no meio da curva.

O gerente da equipe Petronas SRT Yamaha, Wilco Zeelenberg, mencionou isso. “Fabio entende bem como obter o tempo da volta com a moto no momento. Ele ainda não se fixou a um estilo tipo ‘isto é para os pneus Bridgestone’, ‘isto é para a Ducati’, ‘isto é para a Honda’. Ele é muito aberto a encontrar o tempo da volta com a moto que você dá a ele.”

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Por outro lado, a história de Viñales a bordo da Suzuki GSX-RR, uma motocicleta de manuseio doce, mas que apresenta características de frenagem consideravelmente diferentes da M1, significa que ele nunca se adaptou totalmente à moto.

Em 2017, Valentino Rossi soltou a primeira farpa em direção a Viñales quando disse que seu companheiro de equipe não tinha “história com a Yamaha” e, portanto, não sabia como escolher um caminho. Mas uma das razões pelas quais Viñales se desentendeu com o ex-chefe de equipe Ramon Forcada foi a crença de seu compatriota de que a M1 precisava de uma abordagem mais “Lorenzo-like”.

“Maverick veio da Suzuki”, disse Zeelenberg. “Frankie esteve na Honda. Isso interfere um pouco [porque] você está procurando um tipo de sentimento que talvez não esteja na Yamaha ou precise de outro estilo de pilotagem. [Fabio] não tem outra experiência com o MotoGP. Ele apenas gosta da moto e vai rápido.”

Um funcionário da Yamaha que não quis se identificar reportou que os problemas persistentes de Viñales no início das corridas remontam aos nervos e à pressão excessiva que ele exerce sobre si mesmo mais do que qualquer outro.

A própria história de Viñales em um exemplo dos perigos de esperar demais de um piloto ainda muito cedo. Ele continua sendo um dos principais talentos da classe. Mas ele está sempre à beira de subir ao nível de Marquez há quase 30 meses. Enquanto isso, o piloto quatro anos mais novo está fazendo coisas a bordo da Yamaha que três outros ex-campeões mundiais não conseguem fazer.

Enfim, será muito difícil para Vinãles escapar da estranha sensação que a sua equipe estará depositando a fé dela em uma nova esperança quando os contratos chegarem ao final em 2020, caso o francês continue ditando os eventos lá na frente, nos domingos…