A incrível aventura de ir assistir um grande prêmio de MotoGP no Japão.

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Quando o até então amigo virtual Hirochi me convidou pra ir ao Japão assistir a MotoGP em Motegi, de imediato recusei porque havia acabado de chegar da MotoGP na Argentina. Mas não foi só por isso que recusei. O fato é que eu e minha esposa sempre vamos juntos aos GP’s e eu já sabia que o Hirochi tem um jeito bem “raiz” de assistir às corridas em Motegi: ele vai para o autódromo na sexta feira em sua Van e só sai de lá no domingo após a corrida. E isso seria impossível fazer com minha esposa junto, portanto agradeci.

O problema foram os dias subsequentes: dormia e acordava pensando no convite feito pelo amigo, e, 4 dias após, ao comentar com alguns amigos durante um jantar, recebi deles um tremendo incentivo para ir e em seguida o mais importante, o aval da esposa com a palavra mágica: Vá! Decidimos que eu iria sozinho para não atrapalhar demais os planos do Hirochi e porque já não conseguimos mais hotel em Motegi e região. 

Parti então para um curso intensivo de inglês porque não sabia nada, e em 3 meses aprendi o básico para me virar pelo menos nos aeroportos, restaurantes e hotéis.

Para entrar no Japão é preciso um visto, o qual consegui sem dificuldades e a viagem é longa e cansativa: pra mim, que saí de Foz do Iguaçu, no Paraná, foram 23 horas de voo divididas em 3 etapas: Foz/São Paulo, São Paulo/Newark(USA) e Newark/Toquio, um emendado no outro. Já na chegada em Narita, 65km de Toquio e o principal aeroporto do Japão, dá para perceber que você chegou em um lugar diferente. Ao pedir a primeira informação a pessoa não apenas me informou, mas me acompanhou até o local. Pura gentileza que também se repetiu em outros lugares.

Após um rápido passeio por Toquio, fiquei 3 dias na casa do Hirochi para descansar e me adaptar ao fuso horário, o que não aconteceu nesses 3 dias. O Jet lag, desordens do ritmo circadiano, me pegou com força. Normalmente uma pessoa precisa de um dia para compensar cada hora de fuso e seriam necessários então 12 dias para compensar às 12 horas de fuso horário. Tem pessoas que sentem mais e outras sentem menos os efeitos do Jet lag. Tem pessoas que precisam de apenas 2 ou 3 dias e outras precisam de até 30 dias pra entrar no ritmo. Eu fiquei 13 dias no Japão e só não senti absolutamente nada no décimo dia, sendo que nos dias seguintes senti novamente mas em menor intensidade. Esses efeitos vão da dificuldade de iniciar e manter o sono à noite, aumento da fadiga, perda da concentração, aumento da irritabilidade, entre outros.

Os sintomas são devidos a um fenômeno de dessincronização entre os ritmos do corpo e os ritmos ambientais. O ritmo notoriamente afetado é o ciclo de sono e a atividade (dormir-despertar), com as mudanças associadas ao desempenho fisico e mental. No meu caso eu também sentia pouca fome e só comia mais ou menos bem na casa do Hirochi, pois lá eu tinha arroz, feijão, bife e etc… Pra falar a verdade senti tremenda dificuldade com a comida japonesa. A “salvação” eram os restaurantes e redes de fast food internacionais, quando havia algum por perto. 

Muita emoção ao chegar em Motegi. Absolutamente nada a ver com o que eu já conhecia. Nada a ver com Interlagos, nada a ver com Jacarepaguá, nada a ver com Termas de Rio Hondo. A pista de Termas é espetacular, a Tribuna VR46 e a MM93 principalmente são excelentes lugares para assistir a corrida, mas fica só nisso mesmo. A diferença em estrutura é gritante. Não tem nem como comparar, é mais ou menos 10 a 2 no placar. Banheiros limpos e em abundância, restaurantes, tendas para lanches, lojas amplas com materiais dos nossos ídolos e da MotoGP em geral e o mais importante: pessoas educadas. É impressionante o respeito que os japoneses tem pelo próximo. Todo o autódromo é de uma limpeza impressionante. Se você ficar doente e precisar encontrar um pedaço de papel no chão pra remédio, vai morrer mas não vai encontrar.

Twin Ring Motegi

Aliás, praticamente todo Japão é assim. Uma única exceção eu vi num bairro de Toquio. Esta foi a sétima vez que assisti MotoGP ao vivo e a primeira vez que fui ao Paddock. E não poderia ter escolhido lugar mais apropriado pra isso. Pra pegar um bom lugar no Paddock é só chegar cedo que pro resto do dia seu lugar estará garantido. Se você precisar sair para ir comer, ir ao banheiro ou fazer uma foto em outro local, é só deixar sua mochila no seu local que ninguém mexe ou se apropria do seu lugar. Impressionante os japoneses!

Estar no Paddock é quase como ter um sonho: afinal não é todo dia que você se encontra com o simpático Paolo Ciabati, com Luigi Dall’Igna, o Gigi, Davide Brivio, Alberto Puig, Takeo Yokoyama, Shuhei Nakamoto, Santi Hernadez, Emilio Alzamora (segundo campeão mundial sem vitória no ano do título e empresário de MM), Carlo Pernat, Lucio Cecchinello, Max Biagi, Aki Ajo entre tantos outros. Desses aí, só o Puig foi mais reservado. os outros todos foram muito simpáticos, e os pilotos então… De repente estão todos ali, muito perto de você. Todos os pilotos a quem visitei no Paddock foram simpáticos com apenas uma excessão: Fábio Quartararo.

Aquela foto verde de lei. Miguel e Ciabatti.
Ajo e Miguel.
Hirochi, Lucio Cechinelo, Miguel.
Miguel e Gigi Dall’Igna

O repentino sucesso subiu à cabeça do garoto e ele mostrou toda sua arrogância para com seus fãs, inclusive eu, que já havia até procurado comprar um boné ou camiseta dele tanto para mim como para minha esposa. Cada vez que ele aparecia no Paddock dava no máximo dois autógrafos ou tirava duas fotografias, nada além disso. Alguém precisa gerenciar melhor esse garoto. Até Valentino, que tem fama de deixar seus fãs esperando e as vezes sem aparecer, foi super gentil no Japão. Deu muita atenção, várias fotos e vários autógrafos toda vez que passava por ali. Todos os 4 pilotos da Honda foram super simpáticos com destaque para o mais famoso deles. Sem comentários o carisma e a simpatia de MM para com todo mundo, mesmo para as pessoas que estavam vestidas com roupa ou boné de outra equipe ou de outro piloto. Lorenzo idem, muitos autógrafos e fotos toda vez que passava por ali. 

Jorge Lorenzo, Hirochi e Miguel.

Para a noite de sexta feira o Hirochi havia conseguido Hotel numa cidade próxima chamada Yuki, distante 45 km de Motegi. Quando saimos pro hotel deixamos dois cones marcando nosso lugar no estacionamento. E no sábado de manhã para minha surpresa os cones ainda estavam lá, com a nossa vaga garantida. Nosso vizinho de estacionamento deixou uma bicicleta marcando seu lugar, outro deixou uma pedra. Todo mundo respeita, quase inacreditável! Imaginem uma cena dessas no Brasil. Fica sem cone, sem vaga e sem bicicleta. E por falar em bicicleta, muitas pessoas levam bicicletas pro autódromo para se deslocar do estacionamento para dentro do autódromo. Nenhuma pessoa é revistada, nenhuma bolsa é revistada, nenhuma caixa térmica é revistada (sim, eles levam caixas térmicas pro autódromo, tem gente que leva duas num carrinho), coisas do Japão. Caso alguém vá para lá futuramente, fica a dica do restaurante brasileiro da Neide em Moca, 25 km de Motegi e a caminho do hotel em Yuki.

Miguel inclinando 68 graus.

Como choveu muito no sábado, preferimos ver os treinos de um local coberto nas arquibancadas. No domingo pela manhã fomos novamente ao Paddock e na corrida fomos pra arquibancada num lugar excelente na reta de largada com boa visão dos boxes e de uma boa parte da pista e com dois telões à nossa frente. Sobre a corrida não vou falar nada aqui pois todos assistiram a mais um show do Marquez.

Destaque especial para o Museu da Honda dentro do autódromo. Lá estão as primeiras motos da Honda, todas as que marcaram época (inclusive de outras marcas como Triumph, Yamaha, Suzuki, Kawasaki, Aermacchi, MV Agusta, Bultaco, Montesa) entre outras. Destaque para a Honda NSR do Alexandre Barros e para o McLaren F1 do Airton Senna. A Honda mantém um grande acervo de motos de competição de todos os tempos. Tem motos de 1 a 6 cilindros, uma mais impressionante que a outra. Dá pra passar um dia inteiro dentro do museu. São 3 andares de pura emoção.

Depois da corrida mais alguns passeios pelo Japão e por fim 3 dias em Toquio, onde pude derrubar algumas lendas. Quando pesquisei sobre o que fazer em Toquio em 3 dias, todos os autores haviam dito que é uma cidade muito cara, que era impraticável andar de taxi devido ao preço, que os hotéis eram caríssimos, restaurantes igualmente caros e assim por diante. Pois bem: andei de taxi e gastei entre 55 e 73 reais por corrida. Almocei numa churrascaria brasileira em Shibuya, um bairro especial da Metrópole de Toquio e paguei 71 reais por um espeto corrido, uma pechincha.

Me hospedei em hotéis bons à 365 reais a diária para duas pessoas, ou ainda por 312 reais para duas pessoas no Narita Gateway, Hotel em Narita próximo ao aeroporto. Esta estada em Narita não estava prevista mas uma enchente no dia do embarque impediu que eu chegasse ao aeroporto em tempo. O trajeto entre Toquio e Narita faz-se normalmente em uma hora e meia, porém saímos de Toquio ao meio dia e meio e chegamos no aeroporto às 21 horas. Praticamente todo este tempo ficamos rodando por vias alternativas tentando achar um caminho que ainda não estivesse interditado. Tentamos pelo trem, mas também estava interditado. Os japoneses parecem ser acostumados com o caos. Eles têm tsunami, terremoto, tufão e enchentes. Meu vôo era às 17:45 e devido ao caos que se instalou na região ele partiu às 20:20 e eu fiquei para o dia seguinte.

Nada acontece à toa, no dia seguinte em Narita conheci um lugar fantástico chamado Narita San. Templos e construções tipicamente japonesas num lugar de tirar o fôlego e por fim o último almoço no Japão no restaurante brasileiro Teco Teco, onde fiz minha melhor refeição fora da casa do Hirochi.

Por fim quero agradecer ao Jeison Marques, proprietário do Maniamoto.com.br pois esta viagem só se realizou graças ao Blog, ao editor Henrique Franco pelo incentivo, ao incansável editor Dr Paulo Leite pelo “acompanhamento”, aos demais amigos do Maniamoto e para o maior gentleman que já conheci na minha vida, Hirochi Yamanaka.

Hirochi

Thanks Hirochi!!!