Honda: Do sorriso de Márquez para a desolação de Lorenzo.

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“Não é problema da Honda que Marquez seja o único piloto rápido na moto. O problema é  que os outros pilotos são lentos” (Albert Puig)

Honda RC213V: Como pode uma moto ser antípoda dela própria? Um piloto termina em primeiro em Aragão e o outro em último. Um piloto aspira ao título do Campeonato e o outro campeão não se adapta a moto campeã.

A situação não poderia ser mais assustadora. E não apenas para o pentacampeão Jorge Lorenzo. Nem, é claro, para o heptacampeão catalão Marc Márquez. Nem mesmo para a famosa fábrica da Honda, que acreditava ter alcançado o melhor ‘time dos sonhos’ na história da categoria rainha.

Simplesmente para o espectador habitual das corridas que acompanha o Campeonato do Mundo de MotoGP e vê que a mesma motocicleta, a Honda RC213V é a primeira no FP1 no Grande Prêmio de Aragão, realizado em Motorland (Alcañiz), com um tempo estratosférico de Márquez (1.46.869 minutos, quase o recorde da pista) , e, ao mesmo tempo, a moto está na última posição – nas mãos de Lorenzo (1.51.034) , ou seja – 4.65 segundos, é para esfregar os olhos e verificar se não está tendo um pesadelo.

À tarde, Lorenzo passou da posição 23 para a 20, claro que não foi uma grande melhoria, mas reduziu a desvantagem em relação ao melhor tempo em mais de um segundo. A situação reflete uma tremenda confusão na garagem de Lorenzo e, acima de tudo, um enorme desencanto para aqueles, como Alberto Puig, que contribuíram para a vinda de Lorenzo. Todos estão decepcionados com o papel que um dos melhores pilotos da história do motociclismo está desempenhando, que, se assim for, começa a espalhar poeira em uma vitrine que, até agora, era imaculada.

Muitos problemas juntos?

Enquanto Márquez está a um ou dois passos de alcançar seu oitavo título mundial, com 26 anos e o sexto em sete anos no MotoGP, Lorenzo continua a sofrer, ele diz, as conseqüências de uma temporada horrível (“ desde o início da temporada não estou bem porque me machuquei nos últimos meses de 2018”) e, acima de tudo, ao desajustamento a moto campeã mundial. A confusão do maiorquino é tal que hoje, pela primeira vez em todo o ano, ele até falou que a Honda deveria mudar, com vistas para a próxima temporada, não apenas o conceito da moto, não apenas sua capacidade de gerenciamento do chassi “mas também o motor”.

Enquanto Márquez deixou todo mundo sem palavras com um tempo incrível no FP1 desta sexta-feira (veja a matéria anterior), e reconhece estar em um ótimo momento “com o ritmo certo para tentar vencer, novamente, em Motorland”, Lorenzo diz que sente desolado, confuso, dolorido, física e mentalmente, “além do meu ritmo que deixa muito a desejar; é claro que não estou feliz com o que fiz, nem satisfeito e é difícil, muito difícil, reconhecer isso”.

Na fábrica das asas, a equipe campeã aspira, apoiada somente em Márquez, conquistar os três cetros mundiais (pilotos, construtores e equipe), e eles não parecem dispostos a tomar nenhuma decisão sobre o desastre que está ocorrendo com Lorenzo, que ainda tem mais um ano de contrato (2020). Tudo parece indicar que ninguém moverá um dedo para não fornecer a Lorenzo um motivo legal para quebrar o contrato e poder cobrar o ano restante.

Lorenzo também não fala sobre seu futuro, apesar de ter garantido em Misano que vai cumprir o ano restante, esquecendo a sua tentativa de assinar com a equipe satélite da Ducati, Pramac, com vista para o próximo Campeonato, tirando o lugar de Miller. “A mudança que a Honda fez na moto do ano passado para este ano também não me beneficiou. Depois vieram os ferimentos, todos muito difíceis. E, sim, a adaptação está sendo muito difícil, muito mais do que eu pensava. Devo até admitir que, mesmo antes de me machucar, eu também não estava perto dos que estavam à minha frente.”

Se a Honda, por enquanto, não planeja mover um dedo; se a Honda, no momento, está caminhando em direção a um novo título ou, quem sabe, a conquista tríplice, via Márquez. Se o mercado ao qual o bicampeão de Moto2 foi ejetado – o francês Johann Zarco que acaba de sair da KTM, e tem aspiração à  moto de Lorenzo – tem poucas vagas para preencher e oferecer, não há dúvida que a única coisa que o paddock de MotoGP espera é que Lorenzo renuncie ao restante do seu contrato com a Honda e pare de sofrer, concluindo uma das carreiras mais brilhantes da história do motociclismo, com 68 vitórias, 69 ‘poles’, 37 voltas rápidas e 152 pódios em 291 grandes prêmios. E, claro, cinco títulos brilhantes: dois nas 250cc (2006 e 2007) e três no MotoGP (2010, 2012 e 2015), derrotando nada mais e nada menos do que Valentino Rossi e Marc Márquez.