Honda e Yamaha, ambas com conflitos internos em seus horizontes.

646

Apesar das tensões surgidas entre companheiros de equipe em 2018, os times conseguiram mantê-las sob controle no ano passado. Era “um túmulo aberto” que Andrea Dovizioso e Jorge Lorenzo não podiam suportar a companhia um do outro até o final do ano, mas, na maioria das vezes, as particularidades do descontentamento mútuo pouco se infiltrava no domínio público. Na Yamaha, Maverick Viñales e Valentino Rossi tentaram puxar a M1 em diferentes direções, mas o fizeram principalmente atrás de portas fechadas, em vez de sob o brilho da mídia mundial.

Essa discrição parece que mudará em 2019. A questão é: qual time será o primeiro a explodir?

A aposta está na Yamaha. Maverick Viñales tinha algumas palavras fortes para dizer em 2018, mas elas foram direcionadas principalmente para sua equipe e para a Yamaha. Leia nas entrelinhas, porém, que houve frustração devido a Yamaha estar ouvindo mais a Valentino Rossi do que a ele. Rossi, por sua vez, deu “voltas no quarteirão” mas sabe que precisa trabalhar mais com a Yamaha, e não com o seu companheiro de equipe, algo que fez algumas vezes no ano passado.

A Yamaha tem uma escolha a fazer este ano: ou investe plenamente em Maverick Viñales como caminho para o futuro, ou fica com a experiência de Valentino Rossi, esperando que o seu feedback funcione para a equipe. É uma decisão que eles adiam há algum tempo, esperando que a disparidade entre o feedback dos dois se resolva. Mas depois de uma única vitória em 2018, e estando completamente fora da disputa pelo título, eles não podem mais adiar. Dada que a paciência de ambos os pilotos está se esgotando. Quem perde – ou se sente como se tivesse perdido – é provável que vá a público com críticas, já que mantê-las a portas fechadas não ajuda.

As coisas não serão muito melhores na Honda. Após anos sendo o piloto número um de fato dentro da equipe Repsol — e gastando muito de sua energia nas duas últimas temporadas pressionando a HRC a moldar a equipe e o processo de desenvolvimento na forma que ele quer — Marc Márquez é acompanhado por um piloto que espera, no mínimo, ser tratado como um igual. Dani Pedrosa era um piloto de equipe resignado, balançando pouco o barco, e que sempre se desviava das tentativas de abrir uma brecha entre ele e Márquez, qualquer que fosse a provocação da imprensa. Em contraste, Jorge Lorenzo juntou-se à Yamaha contra os desejos de Valentino Rossi e passou sete anos a compartilhar uma garagem com o homem considerado o mestre dos jogos mentais.

Márquez e Lorenzo têm muito em comum. Você pode pode dizer que eles são os dois pilotos mais talentosos do grid, e ambos têm a crença de que merecem ser campeões. Ambos esperam ser líderes e ser ouvidos sem questionamentos. Mas eles têm abordagens muito diferentes para as corridas, o que os levou a colidir tanto na pista quanto fora dela. Márquez adora a batalha difícil e complicada, enquanto Lorenzo é um adepto da escola de corridas de Casey Stoner, onde as ultrapassagens só devem ser feitas de forma limpa e sem atrapalhar a passagem do outro piloto. (Se tanto Stoner quanto Lorenzo se apegaram religiosamente aos princípios de seu próprio credo é uma questão para outro dia).

Em algum momento, Márquez e Lorenzo vão colidir, como fizeram no passado. Lorenzo culpou Marc Márquez pelo acidente na primeira curva de Aragon, e teve palavras duras para com ele depois da Argentina. Ele recusou-se a apertar a mão de Márquez depois de colidirem na última curva de Jerez em 2013.

Márquez falou abertamente sobre querer bater o Lorenzo com a mesma máquina. Está subentendido que ele não acredita que Lorenzo possa competir com ele. Assim posto, como isso pode acontecer? Haverá uma corrida ou uma sessão de treinos onde Marc Márquez correrá um pouco perto de Jorge Lorenzo, ou Lorenzo acredita que Márquez não lhe deixou espaço suficiente. Um jornalista perguntará a Márquez sobre o incidente, e ele dará uma resposta irreverente e rirá de todo o incidente, para o descontentamento de Lorenzo. Nesse ponto, a mídia vai explodir a coisa toda de forma desproporcional, fazendo perguntas para provocar novas reações em Márquez e Lorenzo em todas as oportunidades. A equipe de relações públicas geralmente experiente da Honda tentará minimizar o incidente, até que a mesma coisa aconteça novamente. Enxague e repita isso pelo resto da temporada, para o prazer da mídia e dos fãs.
_______

Mais uma contribuição do amigo Paulo Leite – O ManiaMoto agradece sua atenciosidade e contribuição com o site.
Leia também:

Opinião do leitor: O que esperar do MotoGP em 2019?

Opinịo do Leitor РO Maniamoto quer dar voz e espa̤o ao seus leitores.