O que podemos tirar de objetivo do teste de Sepang?

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“Com essa aderência, Rins e Viñales foram os mais rápido”

Marc Márquez

O teste da Malásia revelou que maioria das fábricas estão mais próxima do início de seus projetos de desenvolvimentos do que do final. Aparentemente o equilíbrio do motoGP parece estar mudando, com as fábricas próximas na tabela de tempo.

Combinando os tempos dos três dias do teste de 2020, os doze primeiros pilotos ficaram dentro de um intervalo de 0,415 segundos. Havia dezenove pilotos dentro de um segundo em 2020, enquanto em 2019, o décimo nono piloto mais rápido – então o novato Miguel Oliveira – estava 1,710 segundos atrás de Petrucci, o melhor tempo daquele teste.

Outra razão para as mudanças foi a entrada de um novo pneu traseiro da Michelin. Com maior aderência em todas as condições e maior durabilidade, este fator já começou a impactar nos resultados dos testes de Sepang. E como o pneu mudou, será necessário pelo menos a primeira parte da temporada para que as fábricas e os pilotos descubram como tirar o máximo proveito deste pneu. Isso significa que provavelmente teremos algumas surpresas ao longo do ano. Poderá ser como em 2016? Algumas pessoas dentro da Michelin acreditam nisso.

Pneus são apenas um elo da cadeia que converte gás de combustão de alta pressão nos cilindros do motor em força motriz para acelerar a motocicleta. Em corridas, no entanto, tudo é uma questão de pneus…

O efeito Michelin

O novo pneu traseiro que a Michelin trouxe é um grande passo à frente na aderência. Isso é positivo – mais aderência é igual a melhores tempos de volta -, e negativo – uma grande mudança nas características de aderência, durabilidade e desgaste significa que as equipes têm poucos dados para a temporada 2020. Há uma frase que pilotos tão diversos como Andrea Dovizioso e Fabio Quartararo repetiram ´ad nauseam´, e que pode ser ouvida em quase todas as garagens – “Primeiro, temos que entender os pneus”.

Os pneus só podem realmente ser entendidos quando chegarmos às corridas. Até agora, o novo Michelin traseiro parece ter menos desgaste e também sofre menos quando passa por um menor ciclo de calor (i.e., quando é pilotado por seis ou sete voltas), depois é recolocado novamente nos aquecedores de pneus e retirado para outras voltas.

Mas isso é apenas uma indicação. Como um pneu se comporta após 20 voltas, depois do piloto sair de seu traçado ideal para tentar fazer uma ultrapassagem, defender-se de outro piloto, ou ficar preso no fluxo, atrás de outro piloto, tendo que pressionar mais os freios e forçar mais a aceleração, é outra coisa. Demorará algumas corridas antes sabermos quem descobriu os pneus primeiro.

Isso também se aplica ao fato de o novo pneu realmente favorecer as motos de maior velocidade de curva – Yamaha, Suzuki e Aprilia – em detrimento das motos “stop and go”. O novo Michelin tem mais aderência na borda do pneu, o que permite mais velocidade na curva. Mas também tem mais aderência na parte gorda do pneu, o que ajuda a ganhar tração quando você pega a moto na borda e abre o acelerador. Talvez a Yamaha e a Suzuki tenham aqui uma vantagem, como Marc Márquez acredita. Mas assim que a Honda, Ducati e KTM descobrirem o pneu, elas também serão beneficiadas. Talvez até mais do que as três primeiras citadas.

Uma nova era para a Yamaha?

A Yamaha trouxe uma moto completamente nova – ou melhor, um motor completamente novo em um novo quadro com características quase idênticas ao quadro de 2019, que já funcionou bem – para as suas superestrelas (passada, presente e futura). Fabio Quartararo liderou a tabela de tempos nos três dias e mostrou um bom ritmo, embora não estivesse no nível de Maverick Viñales.

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Ironicamente, Quartararo deu as voltas mais rápidas, mas ficou longe de ser decisivo no que diz respeito ao tempo da volta. Isso demonstra mais uma vez que a velocidade máxima da Yamaha é boa.

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Tudo é uma questão de ‘velocidade máxima’, como Valentino Rossi sempre repete, ecoando as palavras do engenheiro da Honda, Takeo Yokoyama. “Pelo que entendemos, os quatro em linha é um pouco mais fácil de pilotar, mas um pouco mais lento”, explicou o piloto da Monster Energy Yamaha. “É sempre difícil, porque o V é mais rápido na reta e ir mais rápido na reta é ‘grátis’. Você não faz um grande esforço. Parece que a nossa moto é um pouco melhor na curva, mas para ser mais rápida no canto, você sempre tem que arriscar; tem que fazer sempre mais esforço. Portanto, não é fácil. Mas esse é o nosso DNA. A Yamaha é assim e acho que permanecerá sempre assim, os quatro em linha, então temos que dar o máximo assim.”

Rossi certamente foi revitalizado, encerrando o teste na quinta posição e pouco menos de dois décimos atrás de Quartararo. Era disso que ele precisava – “A sensação de estar competitivo”, disse ele. “Estou feliz com a quinta posição e foi um teste positivo. Seu ritmo de corrida, no entanto, está um pouco atrás das Yamahas de Viñales e Quartararo, mais 2’00s e menos 1’59s, respectivamente.

Maverick Vinales resiste à volta rápida

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Maverick Viñales terminou o dia final em décimo sexto lugar, quase seis décimos atrás de seu futuro companheiro de equipe. Mas a única razão pela qual ele terminou em uma posição tão humilde é porque sua equipe o impediu de perseguir uma volta rápida. “Estou feliz porque estávamos calmos”, disse Viñales. “De manhã, todo mundo colocou pneu supersoft e passou a atacar a tabela de tempo. Não sei como resisti, hein? Eu fiquei tipo – não, ataque de tempo não! Mas o time me acalmou ao dizer: OK, você está aqui para trabalhar.”

E trabalho foi o que eles fizeram. No ritmo das corridas, no frio da manhã, quando há muita aderência, e à tarde, quando não há. Às 15h – horário da corrida – Viñales saiu e fez quase a distância da corrida. No calor do dia, com temperaturas na pista em torno de 55° C e a aderência desaparecendo no calor, o piloto da Monster Energy Yamaha fez uma longa sequência de 1m59s. Ele parece estar com a cabeça e os ombros acima do resto agora. Mas ainda há um longo caminho a percorrer antes do Catar.

Viñales também experimentou um novo dispositivo “holeshot”, operado por um botão à esquerda da moto. À primeira vista, parecia funcionar como na versão da Ducati, que abaixa a traseira da moto. Peter McLaren, do Crash.net/motogp, ficou próximo a Vinales enquanto este acionava o mecanismo e percebeu que a Yamaha parecia se abaixar tanto na traseira quanto na frente. A Yamaha tem algo para manter a moto mais baixa nas duas extremidades? O teste do Catar nos dirá mais. Mas o sistema está claramente em desenvolvimento e ainda pode mudar antes da primeira corrida.

Suzuki discreta em seus grandes passos.

Enquanto a Yamaha 2020 parece ter feito uma grande melhoria, a Suzuki fez um progresso silencioso de onde estavam no ano passado. A Suzuki venceu duas corridas no ano passado, e mesmo pequenos progressos a partir daí a coloca na disputa para mais.

A única fraqueza que a Suzuki teve em 2019 foi a falta de ritmo na classificação. O novo Michelin parece ter ajudado a Suzuki, mas a fábrica japonesa também fez melhorias em áreas-chave. Um novo chassi, que está sendo testado, ajudou a estabilizar a moto na frenagem, e o motor mais recente possui um pouco mais de potência, mas com uma entrega de energia muito mais suave.

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Uma comparação do teste do ano passado com o deste ano ilustra as melhorias feitas. Em 2019, Alex Rins terminou o teste na décima segunda posição, 0,941 atrás do piloto mais rápido que foi Petrucci. Em 2020, Rins é o terceiro mais rápido no geral, apenas 0,101 atrás de Quartararo. E essa melhoria ocorreu à custa de ritmo da corrida: 27 das 42 voltas que Rins fez antes de terminar o teste no início da tarde eram 1’59 ou menos. O companheiro de equipe Joan Mir foi um pouco mais lento no domingo, mas ele já havia feito a sua sequência de 1m59s no dia anterior. Esta moto parece ser uma verdadeira concorrente no campeonato.

Enfim, o MotoGP está mais próximo e mais difícil do que nunca, e isso ficou claro no teste de Sepang. O ano de 2020 será difícil para os pilotos, equipes, fábricas e engenheiros. E ótimo para os fãs do motociclismo.

# Nas matérias seguintes vamos abordar as outras fábricas.