Que efeito a vitória de Petrucci terá no seu futuro e na dinâmica da Ducati?

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“Ganhar não é ficar à frente dos outros e sim ficar à frente de você.”

Numa cultura em que os homens são mal vistos quando demonstram emoção, os esportes são uma das poucas arenas em que é socialmente aceitável que os homens chorem lágrimas de alegria, de tristeza, de frustração. E foi isso que aconteceu com Danilo Petrucci assim que cruzou magistralmente a linha de chegada. Lágrimas de alegria e alívio fluíram livremente durante a desaceleração e retornaram quando Petrucci ficou no pódio para o hino. Também havia algumas lágrimas de repórteres veteranos retorcidos.

Naturalmente o que realmente torna Petrucci tão amável é sua história de perdedor para os pilotos famosos. Ele chegou ao MotoGP a partir da Superstock 1000cc Cup da FIM, sem experiência em Moto2 ou 125s. Ele era grande demais para ser um piloto de MotoGP, e como um piloto da Superstock 1000, foi desprezado pela maioria das pessoas no paddock do Grande Prêmio.

Mas ele aproveitou todas as oportunidades que surgiram. Foi piloto de testes para o projeto WorldSBK da Ducati e depois juntou-se à equipe da IODA Racing como entrada na nova classe CRT, criada pela Dorna como forma de encher a grid e pressionar os fabricantes a encherem a grelha. Depois, Petrucci moveu-se para o time da Pramac, tornando-se melhor a cada ano, para finalmente chegar à fábrica da Ducati ao lado de Andrea Dovizioso.

Petrucci enfrentou várias críticas por ser indigno como piloto de fábrica da Ducati. A primeira vitória de Petrucci deverá acabar com essas críticas, considerando que ganhou em pista seca contra os melhores pilotos do mundo?

Companheiros de equipe

Há muito a ser dito sobre a maneira pela qual Petrucci venceu a corrida, mas como a Ducati verá isso? Por um lado, a Ducati deu a Petrucci o objetivo de vencer pelo menos uma corrida em 2019. Ele conseguiu isso com a sua vitória em Mugello, uma corrida onde era importante para a Ducati triunfar na frente de seus patrocinadores. Por outro lado, como resultado de sua ultrapassagem, Andrea Dovizioso perdeu pontos no campeonato para Márquez, terminando atrás do líder numa corrida onde precisava mesmo de terminar à frente.

A julgar pelas reações na garagem da Ducati quando Petrucci cruzou a linha de chegada, a fábrica de Bolonha ficou completamente encantada. Mas Petrucci afirmou, por três vezes na conferência de imprensa, que lamentava que Dovizioso perdesse pontos no campeonato e prometeu passar o resto do ano ajudando o Forli a tentar conquistar o título.

“Eu sabia que Marc e Andrea tentariam me ultrapassar na última reta”, disse Petrucci na coletiva de imprensa. “Eles fizeram isso. Eles frearam muito forte. Eu freei um pouco mais cedo. Havia apenas um metro e meio e eu coloquei minha moto lá. Andrea estava perto do canto, mas eu estava lá. Sinto muito por esse passe. Andrea seria a última pessoa no mundo que eu quero ultrapassar. Mas hoje eu achei que tinha uma boa chance de ganhar. Como eu disse, era o meu objetivo para este ano. Agora podemos focar em nosso objetivo para a temporada. Agora eu acho que estou mais, digamos, não mais seguro, mas mais relaxado. Podemos pensar em melhorar a moto e tentar ganhar o campeonato com Andrea.”

Petrucci dedicou sua primeira vitória do Grand Prix ao seu companheiro de equipe, tributo oferecido como recompensa pelo dano sofrido. Isto deve ser lido como um sinal do descontentamento oficial da Ducati? Petrucci insistiu que ele não teve uma reunião com a Ducati para discutir o que seria e o que não seria aceitável durante a corrida em Mugello.

O trabalho em equipe pode funcionar em corridas de motos?

Talvez não haja nada para procurar por detrás da dedicação de sua vitória a Dovizioso. “Eu gostaria de dedicar minha primeira vitória a Andrea, meu companheiro de equipe, que me adotou neste inverno como um irmão”, disse Petrucci, e isso é verdade. Dovizioso convidou Petrucci para se aproximar dele em Forli, na Itália. Ele o apresentou ao seu personal trainer, ao seu consultor psicológico e ao seu nutricionista. Os dois treinaram juntos, um empurrando ao outro até o limite para criar uma competição real.

Em um esporte intensamente individual, tem sido notável ver a diferença que essa abordagem fez. Não apenas para Petrucci, mas para a equipe da fábrica da Ducati como um todo. Dovizioso viu o potencial de Petrucci, e trabalhou tão duro para liberar o potencial de seu companheiro de equipe quanto ele próprio para realizar o seu próprio. “O ponto é que estou muito feliz com o Danilo”, disse Dovizioso. “Trabalhamos juntos porque eu sabia que ele tem potencial. Eu disse desde o início da temporada, antes do Catar, em uma entrevista, que ele tinha potencial. Ele tinha que aprender algumas coisas, e ele aprendeu. Acho que o Danilo melhorou essa temporada porque ele acredita mais em si mesmo e entende seu potencial. No passado, ele não acreditava nisso e realmente não analisava e percebia os pontos positivos dele.”

Outras equipes irão adotar essa abordagem? É improvável, por várias razões. Primeiro, requer uma atitude particular, uma abordagem que valoriza a cooperação em vez de ver apenas a concorrência direta com um colega de equipe. Segundo, porque também requer uma divisão clara de responsabilidades. Na equipe de fábrica da Ducati, está claro que Dovizioso vai perseguir o título, enquanto Petrucci foi encarregado de vencer uma corrida e depois ajudar Dovizioso a conquistar o título. Terceiro, poucos colegas de equipe estariam dispostos a aceitar isso, pois exige que um deles reconheça que não tem chance de ganhar o título. Só porque é verdade não significa que o piloto esteja disposto a aceitar essa ideia.

Se você não está na fila para ganhar, qual é o objetivo de correr então? Se Petrucci aceitar ser um personagem secundário, cedo ou tarde voltará o desânimo que, no passado, o levou a pensar em abandonar esse esporte. O vício em continuar a vencer deve ser a força motriz que impulsiona a mente dos pilotos. O objetivo não é apenas derrotar seus oponentes, mas também a pista aonde você vai correr. Marc Márquez é um exemplo claro disso…