Só Márquez pode bater Márquez. Bastidores de sua garagem

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Corrida de motos é um esporte de equipe. Mesmo quando talentos excepcionais aparecem, eles precisam de ajuda para serem bem-sucedidos, da mecânica, dos chefes de equipe, das pessoas ao seu redor. Freddie Spencer tinha Erv Kanemoto, Mick Doohan e Valentino Rossi tinham Jeremy Burgess, Casey Stoner tinha Cristian Gabarrini. E agora, Marc Márquez tem Santi Hernandez.

Hernandez está com Márquez desde que ele subiu para a Moto2, em 2011, e atualmente é o chefe de equipe de Márquez na Repsol Honda do MotoGP. Em seus oito anos juntos, o par venceu seis dos sete títulos do Grande Prêmio de Márquez, provando o sucesso da parceria.

Mas Hernandez não é apenas uma parte vital do sucesso no lado de engenharia de Márquez, ele também tem sido fundamental em outras áreas nas quais o atual campeão mundial mudou a cara das corridas. Márquez e sua equipe são conhecidos por entender a estratégia do paddock melhor do que qualquer outra pessoa. Foi Márquez quem primeiro fez uma estratégia de duas paradas durante a qualificação; foi Márquez quem apostou em fazer a troca cedo, quando a pista ainda estava secando em Brno, em 2017, vencendo por 12 segundos. É Márquez que encontra vantagens em lugares onde outros pilotos e suas equipes temem olhar.

E toda a sua equipe, todos os mecânicos, todos os engenheiros – por incrível que pareça, é um grupo pequeno. Honestamente falando, Marc gosta de correr riscos porque ele é o cara que quer melhorar, e se há algo para melhorar, por que não tentar? Muitas vezes a resposta é: “Sim, mas ninguém fez isso. Ok, mas algum dia alguém tem que ser o primeiro a fazer isso”.

É como alguém que viu um piloto colocar o cotovelo na pista pela primeira vez. Agora todo mundo faz. Mas alguém tinha que ser o primeiro. Kenny Roberts foi o primeiro com o joelho. Antes, ninguém tinha feito, agora é o jeito de pilotar. Segundo Hernandez não é apenas sua decisão, não é apenas o que ele diz, que Marc segue. Além disso, você tem um piloto que quer melhorar o tempo todo. A equipe precisa ter uma mente aberta e querer ouvir. Tudo fica mais fácil.

Marc é sempre positivo. Ele aprende. Ele caiu muitas vezes. Ele comete muitos erros, mas nunca comete o mesmo erro, porque aprende. Essa é a filosofia que os membros da equipe aprenderam com ele. Você não pode dizer: “Eu cometi um erro”. Quando ocorre um resultado negativo a equipe o analisa depois disso, e juntos aprendem. Dificilmente eles cometem o mesmo erro duas vezes.

Como Márquez equilibra o risco com a necessidade de encontrar o limite? Marc é especial? Há algo especial em sua aceleração, frenagem, equilíbrio? Algo assim?

Segundo Hernandez, Marc mudou muito a partir de 2013. Ele tem mais experiência. Ele conhece muito mais a moto, mas também aprendeu sobre o campeonato. Ele aprendeu que para ganhar o título tem que saber administrar. No começo para ele era tudo ou nada. Agora ele já entendeu a dinâmica.

Um de seus pontos forte é a frenagem, mas também ele é inteligente em administrar outras situações, especialmente a forma como ele está lutando, e onde ele não pode fazer a diferença ou onde ele sente durante a corrida que precisa ser paciente. Ele é muito inteligente em fazer isso. No ano passado vimos isso acontecer muitas vezes.

Hernandez prossegue: “Por outro lado, o DNA de Marc todo mundo conhece – na última curva, ele sempre tenta. Este é o Marc. Se você está pensando sobre o campeonato, você não tenta algo no último canto, mas quando chega a hora, os fios de Marc se cruzam. Eu digo para ele: Por favor, não mude, porque você chegou onde está e conseguiu o que conseguiu até agora por causa disso. No momento em que ele muda ou pensa que o que ele está fazendo agora não é o caminho, talvez ele seja um Marc diferente. Para mim, Marc é assim. Ele vence o campeonato fazendo o que está fazendo até agora e, para mim, ele não precisa mudar. Ele precisa aprender. O DNA tem que ser o mesmo.

Por que Marc é tão bom em baixa aderência? Parece que ele é mais forte com pouca aderência. Em uma boa pegada, todo mundo pode alcança-lo, mas quando não há aderência, Marc é imbatível.

“Por ter a melhor configuração! (risos)” Além disso, é claro que Marc anda de moto off-road. Ele gosta de motocross, pista de terra. Esse tipo de prática ou treinamento onde o aperto é forte, você precisa gerenciar com o gás e com o corpo o tempo todo. Ele gosta disso. Ele treina em pista de terra, isso não é um segredo, ele também treina flat track muitas vezes na semana.

“Até Marc começar a treinar em pista de terra, ninguém fazia isso. Agora todo mundo faz isso. Por quê? Ele está pensando em como melhorar. Quando chegou no MotoGP, ele entendeu que precisava administrar a aderência da melhor forma possível. Não dá para treinar com a motoGP quando não se está na corrida. Você tem que fazer alguma coisa para aprender a administrar a situação quando a pista está escorregadia. Então você tem que descobrir que tipo de treinamento você tem que fazer. Uma é a pista de terra. Eu acho que isso dá a ele o que precisa em uma situação de baixa aderência. Ele é mais rápido. Mas novamente, acho que é porque ele é o melhor!”

Enfim, Márquez também parece gostar da “frouxidão”. Quando a moto está solta, quando tudo está em movimento, ele parece se sentir feliz.